Artigo publicado no EXPRESSO Diário - 22 de janeiro de 2020

Texto Manuela Goucha Soares

 

Benjamin fugiu da Alemanha nazi para Lisboa.

Esta é a sua história e a de milhares de refugiados judeus

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Benjamin Schlesinger (a criança da frente) na Cozinha Económica Israelita, a cantina dos refugiados judeus em Lisboa no tempo da II Guerra Mundial <span class="creditofoto">Foto Sousa Mendes Foundation</span>

Benjamin Schlesinger (a criança da frente) na Cozinha Económica Israelita, a cantina dos refugiados judeus em Lisboa no tempo da II Guerra Mundial <span class="creditofoto">Foto Sousa Mendes Foundation</span>Benjamin Schlesinger (a criança da frente) na Cozinha Económica Israelita, a cantina dos refugiados judeus em Lisboa no tempo da II Guerra Mundial Foto Sousa Mendes Foundation

O pequeno Benjamin foi um dos quase 50 mil refugiados que passaram por Portugal para escapar ao extermínio nazi, que vitimou seis milhões de judeus e, estima-se, mais 10 milhões de pessoas malquistas da Alemanha de Hitler. O Expresso recorda a vida dos refugiados em Lisboa para assinalar os 75 anos da libertação dos campos de concentração

Vivi em Lisboa com a minha mãe e o meu irmão mais novo. Éramos refugiados judeus da Alemanha nazi. Saímos de Berlim em novembro de 1939, passámos pela Bélgica, França, Espanha e Portugal, onde ficámos até embarcar no Excambiun”, em Lisboa, a 12 de dezembro de 1941, conta Benjamin Schlesinger num depoimento publicado no Museu da Imigração do Canadá, país que acolheu a família após uma primeira paragem na Bermuda.

À semelhança de muitos outros refugiados que chegaram a Lisboa sem meios de subsistência, Benjamin almoçou e jantou muitas vezes na Cozinha Económica Israelita, organização que teve um papel determinante no apoio aos judeus que fugiam da Alemanha nazi.

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Foto do repórter Roger Kahan (finais de 1940, início de 1941) <span class="creditofoto">Arquivo Histórico Diplomático do MNE</span>Foto do repórter Roger Kahan (finais de 1940, início de 1941) Arquivo Histórico Diplomático do MNE

“Os refugiados tinham um ar diferente dos outros que por ali passavam, havia neles qualquer coisa de singular”, era uma das frases que o jornalista César dos Santos escreveu num artigo intitulado “Gente sem Lar”, publicado no nº 8 da revista quinzenal “Mundo Gráfico”, a 30 de janeiro de 1941.

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Foto do repórter Roger Kahan <span class="creditofoto">Arquivo Histórico Diplomático do MNE</span>Foto do repórter Roger Kahan Arquivo Histórico Diplomático do MNE

Ao contrário do leitor do Expresso, os leitores da “Mundo Gráfico” nunca leram a frase que transcrevemos acima. Aquelas palavras de César dos Santos foram cortadas pela censura que então existia em Portugal e não permitia que nenhuma página de jornal chegasse aos leitores sem (antes) passar pelo crivo do censor. E, ao invés do que quase sempre aconteceu, o lápis que vasculhou e riscou a prosa de César dos Santos não era azul, mas vermelho.

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Primeira página da primeira prova do artigo “Gente sem Lar” foi carimbada pela censura a 19 de janeiro de 1941. Os cortes são inúmeros. A segunda prova foi carimbada quatro dias mais tarde <span class="creditofoto">Arquivo Histórico Diplomático do MNE</span>2 / 2

Primeira página da primeira prova do artigo “Gente sem Lar” foi carimbada pela censura a 19 de janeiro de 1941. Os cortes são inúmeros. A segunda prova foi carimbada quatro dias mais tarde Arquivo Histórico Diplomático do MNE

Depois da segunda passagem pela censura o artigo de César dos Santos teve direito a quatro páginas (19 a 22), e a ser ilustrado pelas magníficas fotos do “famoso” repórter do “Cine-Monde” Roger Kahan, que passou por Lisboa em 1940/41.

As fotos de Kahan sobre “os emigrantes israelitas que passaram em Portugal” foram feitas para ilustrar o livro “Refugiados”, a editar na América, da autoria do citado repórter fotográfico e do médico Augusto d’Esaguy, personagem central na organização da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) no apoio aos refugiados em trânsito para o continente americano.

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Primeiro plano do artigo de César dos Santos, depois de ser visto duas vezes pela censura <span class="creditofoto">Hemeroteca Municipal de Lisboa</span>2 / 2

Primeiro plano do artigo de César dos Santos, depois de ser visto duas vezes pela censura Hemeroteca Municipal de Lisboa

A versão publicada começa a “meio da tarde, no cais, cheio de rumores” e descreve os refugiados como pessoas que “abandonaram os seus lares, as suas afeições (...) e aqui chegaram para logo partir, pois a odisseia deles não termina nesta terra acolhedora e amável, onde os homens se sentem inclinados à compaixão pelas dores dos semelhantes”.

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Bagagem e refugiados nos cais de Lisboa Foto de Roger Kahan para o livro “Refugiados” em co-autoria com o médico Augusto Esaguy <span class="creditofoto">Arquivo Histórico Diplomático do MNE</span>Bagagem e refugiados nos cais de Lisboa Foto de Roger Kahan para o livro “Refugiados” em co-autoria com o médico Augusto Esaguy Arquivo Histórico Diplomático do MNE

Entre a ocupação da França pelas forças nazis, em junho de 1940, e meados de 1941, entraram em Portugal mais de 50 mil refugiados, muitos dos quais com vistos passados pelo cônsul de Portugal em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes.

Lisboa encheu-se de refugiados e a vida da cidade — bem no resto do país — foi marcada por eles.

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Bagagem e refugiados nos cais de Lisboa Foto de Roger Kahan para o livro “Refugiados” em co-autoria com o médico Augusto Esaguy <span class="creditofoto">Arquivo Histórico Diplomático do MNE</span>Bagagem e refugiados nos cais de Lisboa Foto de Roger Kahan para o livro “Refugiados” em co-autoria com o médico Augusto Esaguy Arquivo Histórico Diplomático do MNE

Se a revista “Mundo Gráfico”, dirigida por Artur Portela, foi favorável aos Aliados — facto raro na imprensa europeia da época — a “Esfera”, dirigida por Félix Correia, era claramente pró-nazi.

A Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) “não sofreu diretamente as consequências do nazismo devido à neutralidade política portuguesa durante a II Guerra”, lê-se num texto, publicado no site da CIL, baseado na investigação de Esther Mucznik: “Logo em 1933, a Comunidade e o Hehaber criam a Comassis, Comissão Portuguesa de Assistência aos Judeus Refugiados, presidida primeiro por Adolfo Benarus e mais tarde por Augusto Esaguy, médico, cujo nome acabaria por se confundir com o da Comissão, a ela se dedicando incansavelmente até ao seu final”.

A vida na Travessa do Noronha: sopas, espiões, hospital e refugiados.

No romance “A Última Noite em Lisboa”, Sérgio Luiz de Carvalho conduz o leitor numa ficção histórica que recria a Lisboa de 1940/1941.

A austríaca Charlote Katzentstein tem um irmão que é militante do Partido Comunista alemão e morre a combater pelas Brigadas Internacionais na Guerra Civil de Espanha (1936-1939).

Charlote, que vivia então em Berlim, foge da Alemanha de Hitler e consegue obter um visto emitido por Aristides de Sousa Mendes, que a conduz a Lisboa. Instala-se no nº 20 da Travessa do Noronha, a pequena rua sem saída onde funcionam o Hospital e a Cozinha Económica desde o final dos anos 10 do século XX.

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Sérgio Luiz de Carvalho na Travessa do Noronha, local central do seu romance “A Última Noite em Lisboa”. A Cozinha Económica funcionava no local onde agora estão as árvoresSérgio Luiz de Carvalho na Travessa do Noronha, local central do seu romance “A Última Noite em Lisboa”. A Cozinha Económica funcionava no local onde agora estão as árvores

A Charlote de Sérgio Luiz de Carvalho era espia e envolveu-se com um jornalista da “Esfera” e com “a sua conversada”.

Mas, se fosse uma personagem real, teria ido mesmo comer à Cozinha Económica Israelita, que o jovem Benjamin Schlesinger, frequentava com a mãe e o irmão de três anos. De acordo com as informações de Olivia Mattis, presidente da Sousa Mendes Foundation, mãe e filhos Schlesinger chegaram a Lisboa em 1940.

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Senha de refeição em nome de Benjamin Schlesinger Sousa Mendes FoundationSenha de refeição em nome de Benjamin Schlesinger Sousa Mendes Foundation

A azáfama na Travessa do Noronha era imensa. Por ali passavam refugiados, espiões sem dinheiro para se instalarem no Hotel Palace e membros da polícia política portuguesa devidamente disfarçados.

Num ou noutro momento, todos se cruzaram com Miriam Levy, “diretora e administradora do hospital, e cujas altas qualidades a tornam credora da nossa maior simpatia e admiração”, escreveu o jornalista César dos Santos no seu artigo “Gente sem Lar”.

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Samuel Levy, sobrinho de Miriam Levy, a enfermeira que administrou o hospital israelita em 1941 Foto <span class="creditofoto">José Fernandes</span>Samuel Levy, sobrinho de Miriam Levy, a enfermeira que administrou o hospital israelita em 1941 Foto José Fernandes

Miriam era tia de Samuel Levy, nascido em 1929, uma década depois das novas instalações da Cozinha Económica, Albergue e Hospital Israelitas serem inaugurados na Travessa do Noronha; o albergue ficava no nº 21, a cozinha no 17, e o hospital no 19.

O boletim da Associação Israelita de Beneficência “Somej Nophlim” informa que o primeiro administrador da “cosinha” nas suas novas instalações foi Salomão Levy Júnior — pai de Samuel —, descendente de uma família que deixou Portugal no tempo da Inquisição e regressou no século XIX depois de ter vivido em Marrocos e, depois, em Gibraltar.

A CIL vendeu os edifícios da Travessa do Noronha à “companhia de seguros Mundial Confiança em 1959 ou 1960”, conta Samuel Levy. A seguradora demoliu-os para ali construir três prédios de seis andares — um de habitação e dois onde funcionou um hospital privado.

Ironia do destino foram demolidos em 2019 (para dar lugar a um futuro condomínio), e o habitante mais antigo do número 21 teve de deixar de a casa onde vivia há 57 anos apesar de já ter 89 de idade.

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